Crítica: “Maria e João” e como a história demonizou a libertação feminina

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Você provavelmente não tem o nome de Oz Perkins como um dos realizadores modernos do terror. Ele ainda não está sentado ao lado de Ari Aster, Robert Eggers e Jordan Peele, e por isso merece ser descoberto. É bem verdade que fui ao seu terceiro filme - "Maria & João: o Conto das Bruxas" (Gretel & Hansel) - com certo receio, afinal, os dois filmes anteriores da filmografia de Perkins foram extremos: "A Enviada do Mal" (2015) é uma delícia, enquanto "O Último Capítulo" é horrível.

"Maria & João" é o primeiro dos três a ser uma adaptação, no caso, do conto de fadas clássico de mesmo nome (apesar de invertido). Maria (interpretada aqui por Sophia Lillis, da saga "It", 2017-19) tem o nome abrindo o título já que a obra se passa sob sua ótica. Ela é mandada pela mãe para ser criada na casa de um homem, porém, ela dá meia-volta quando percebe que o único interesse dele era em saber se ela se mantinha virgem.

Por recusar o emprego, a mãe expulsa ela e João (Sam Leakey), por não haver comida o suficiente para todos. Os irmãos devem adentrar a floresta em busca da sobrevivência - e esbarrarão na casa de uma bruxa. Todos nós conhecemos a história - aliás, todos nós conhecemos uma versão da história. Muitos dos contos de fadas carregam origens obscuras, e "João e Maria" não é diferente: no conto dos irmãos Grimm, as crianças são levadas até a floresta para morrerem de fome quando a mãe convence o pai sobre o plano. A bruxa, talvez, nem seja o pior dos problemas dos dois.

O filme então busca fincar suas raízes na versão mais original - e macabra. O roteiro é bastante cuidadoso em criar a mitologia presente na fita, aberta por um prólogo estonteante sobre uma garota que passa por um feitiço para ser curada de uma doença, porém, o preço é alto demais quando o processo destrava o lado mais maléfico da menina, que espalha o caos ao seu redor. Ainda no primeiro ato, há uma cena em que os irmãos buscam abrigo para passar a noite, e são perseguidos por uma espécie de zumbi, deixando claro que o filme está em um universo onde a magia reina.

Ao contrário da história clássica, a casa da bruxa não é feita de doces. O design de produção transforma a construção em uma hipnótica arquitetura negra e triangular - aliás, triângulos estão presentes em várias partes da película, e sempre associadas com bruxaria. O ícone carrega uma centenária simbologia do feminino, que vai de exoterismo até o triângulo negro nazista: era usado para marcar mulheres com comportamento "anti-social", as feministas e lésbicas, que fugiam do ideal feminino, e se tornou símbolo de consciência feminista.

"Maria & João" é um perfeito artefato cultural para o estudo de como as mulheres foram cunhadas no imaginário popular a partir das escolhas de seus papéis. O conto, por si só, não carrega tanto essa vertente, que é amplificada pela adaptação: quando pensamos em bruxas, qual a sua imagem? Velha, estranha, com um comprido nariz e uma risada de gelar a espinha. "O Mágico de Oz" (1939), "A Convenção das Bruxas" (1990) e "Caminhos da Floresta" (2014) são alguns nomes que carregam exatamente esse imagem - e alguns vão mais longe: a imagem da bruxa "feia" é apenas para a bruxa "má", com a bruxa "boa" sendo jovem e bela.

A bruxa de "Maria & João" não foge à regra. Interpretada por Alice Krige, possui uma áurea amedrontadora, maquiada por trás da fragilidade da velhice (ela, em determinado ponto, diz que essa maquiagem é proposital). Esse reforço imagético foi disseminado na Caça às Bruxas, que aconteceu a partir de 1450 e perdurou por três séculos.







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