Lista: as 50 melhores atuações do cinema da década

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Continuando as listas de melhores da década (só clicar na tag para acompanhar todas), dessa vez trouxe as 50 melhores atuações da década no Cinema para o Cinematofagia. E os anos 2010s foram bastante importantes para a Sétima Arte, vendo as portas se abrirem para uma maior diversidade dentro dos maiores pólos da indústria. Mesmo ainda tendo um grande caminho a ser trilhado, das grandes premiações televisivas aos prêmios de festivais mundo afora, estamos cada vez mais valorizando artistas plurais.

Então decidi selecionar minhas 50 performances favoritas em filmes da década. Algumas regras básicas foram levadas em consideração; 1: a atuação deve ser em um longa lançado comercialmente ou disponibilizado no Brasil entre 2010 e 2019; 2: não haverá diferenciação entre atuações principais ou coadjuvantes; 3: só será escolhido uma atuação por ator/atriz (ou seja, a melhor entre profissionais com mais de uma atuação de destaque do período será a escolhida).

Como toda lista, as atuações estão em ordem de preferência, porém, é importante apontar o óbvio: todas são incríveis, não havendo uma menor que a outra. A ordem pega nuances, iconicidade e até mesmo a qualidade do filme como um todo - afinal, uma atuação fica ainda melhor quando dentro de um grande filme -, mas não devem ser levadas com tanta seriedade - até mesmo porque tantas outras igualmente sensacionais ficaram de fora. 50 pode parecer um grande número, no entanto, dentro da qualidade da arte, é só uma pontinha do que a década nos ofereceu.



50. Ronit Elkabetz – O Julgamento de Viviane Amsalem

Personagem: Viviane Amsalem
Co-diretora e co-roteirista, "O Julgamento de Viviane Amsalem" (2014) foi o último filme de Elkabetz antes de sua precoce morte em 2016. Felizmente, a israelita deixou um legado fantástico com "O Julgamento", vivendo a história de uma mulher que apenas deseja o divórcio. Só que, nas leis de Israel, apenas com o consentimento do marido um divórcio pode ser realizado - e seu marido nega o pedido veementemente. Confinando-nos em 2h dentro de um tribunal, o filme é a metáfora perfeita para a situação claustrofóbica da protagonista, que deseja nada além da sua liberdade, tudo sem cair em chavões fáceis como abusos e violências. É a luta pelo simples direito de ser

49. Kim Min-hee – A Criada

Personagem: Lady Hideko
Fincado na era vitoriana de uma Coreia sob o domínio japonês, qualquer elogio pelo aparato visual de "A Criada" (2016) é chover no molhado, pois pouco se fala na atuação de Min-hee, a personagem mais enigmática do complexo filme. O peão que, aparentemente, é manipulada por todos ao seu redor, Lady Hideko vai, a cada minuto, criando camadas que só são efetivas pela performance de sua atriz, potencializada ainda mais pela forma como filme é contado - divido em três partes, cada uma tendo um ponto de vista diferente.

48. Antoine-Olivier Pilon – Mommy

Personagem: Steve Després
"Mommy" (2014) possui um trio protagonista fabuloso, mas Pilon tem a capacidade de roubar a cena com seu complicado Steve. Um adolescente problemático, hiperativo e com déficit de atenção, Steve transforma a vida de sua mãe um inferno, que tem como plano colocar o garoto em uma instituição hospitalar, sob tutela do governo. Pilon se atira em seu personagem, indo do amável ao perigoso em questão de segundos, sem jamais soar fora do lugar - a sequência em que ele literalmente abre a tela é um júbilo.

47. Daniel Radcliffe – Um Cadáver Para Sobreviver

Personagem: Manny
Um dos longas mais originais (e bizarros) da década é "Um Cadáver Para Sobreviver" (2016), que, mesmo tendo um título nacional bem piegas, é a mais pura definição do todo: quando um homem preso em uma ilha deserta está prestes a cometer suicídio, encontra um cadáver na praia, que se torna seu melhor amigo. E sim, Radcliffe é o cadáver. Algo totalmente inesperado para o britânico, Manny une um humor inevitável (o defunto fala) com preciosas ponderações acerca da vida. Do trio protagonista de "Harry Potter", Radcliffe foi o que melhor se saiu na batalha de se desvincular da eterna imagem do mundo bruxo.

46. Nicole Kidman – O Estranho Que Nós Amamos

Personagem: Miss Martha Farnsworth
Revival do filme de 1971, "O Estranho Que Nós Amamos" (2017) prioriza a visão feminina nessa clássica história de uma escola de garotas em meio à Guerra Civil norte-americana. Após um soldado ferido é acolhido na escola, os rumos de todas serão bruscamente alterados, e Miss Martha, a diretora do local, é quem deve tomar as rédeas da situação. Kidman, como não é de se estranhar, é uma entidade na tela que deve escolher entre os desejos carnais e a união de seu grupo - e aquela mulher dúbia é o que há de melhor no filme.

45. Daniela Vega – Uma Mulher Fantástica

Personagem: Marina Vidal
Daniela Vega, no oscarizado "Uma Mulher Fantástica" (2017), é uma das provas dos avanços sociais dentro da Sétima Arte: é uma mulher trans interpretando uma mulher trans. Por ser tão próximo da sua realidade, Vega não apenas dá vida à Marina com competência, mas também com sinceridade. Aquela mulher renegada pela família do recém-falecido namorado é uma das heroínas do cotidiano que caminha contra a torrente para provar e se autoafirmar como é. Uma mulher fantástica.

44. Jake Gyllenhaal – O Abutre

Personagem: Lou Bloom
Na longa jornada de Jake Gyllenhaal em busca de seu Oscar (até agora sem sucesso) viu algumas performances fantásticas, mas nada como a de "O Abutre" (2014). O título, referência direta ao clássico "A Montanha dos Sete Abutres", já dá o gosto do que vem por aí: Lou está desesperado por um emprego e encontra no jornalismo sensacionalista a resolução de seus problemas. Só que a aproximação com tantas desgraças vai afetá-lo mais que o esperado - e tudo é posto com muito poder pelas mãos (e berros) de Gyllenhaal, em uma visceral performance.

43. Jena Malone – Demônio de Neon

Personagem: Ruby
Um dos maiores "ame ou odeie" da década, "Demônio de Neon" (2016) é hipnótico o suficiente para que a sensacional atuação de Jena Malone não receba o apresso que merece. Todos os personagens do filme transitam pela linha do bem e do mal, mas nenhum como Ruby, a maquiadora da protagonista. Malone consegue transpor o tom correto de toda a película com seu ar agridoce, insinuações desconcertantes e sorrisos tortos, sendo uma entidade que, às margens, assiste ao circo de horrores sem sujar as mãos - e como esquecer da cena do necrotério, improvisada pela atriz?

42. Mya Taylor – Tangerine

Personagem: Alexandra
Assim como Daniela Vega, Mya Taylor também é uma mulher trans interpretando uma mulher trans. No entanto, no caso de "Tangerine" (2015), a realidade vislumbrada é a da prostituição. Quando sua melhor amiga descobre que o namorado a trai, Alexandra sai cidade afora em busca do cara enquanto acalenta um sonho de ser uma estrela e sair das ruas. Taylor é um verdadeiro presente pela despida performance, que culmina na cena final, uma das mais lindas do cinema moderno.

41. Peter Skvortsov – O Estudante

Personagem: Veniamin Yuzhin
É curioso quando um personagem é feito para ser odiado, e Veniamin do russo "O Estudante" (2016) é um exemplo. Violentamente obcecado por religião, o garoto inferniza a vida de todo mundo com suas regras sacras e recitações de passagens bíblicas - o filme ainda coloca cada uma delas na tela. Skvortsov é um servo dedicado a transformar seu papel em uma tortura proposital que funciona com um magnetismo assustador - desejar a morte de Veniamin nem gera culpa.

40. Isabelle Huppert – Elle

Personagem: Michèle Leblanc
Uma das atrizes mais completas do nosso tempo, Isabelle Huppert, em "Elle" (2016), entrega uma das mais desafiadoras composições da década. Confesso, não gosto do filme (pois os temas são complexos demais para a forma que são postos no ecrã), todavia, a Michèle de Huppert, após um estupro, busca uma vingança que não vai em caminhos esperados. Indicada ao Oscar pelo papel, a sessão vale inteiramente pela maneira que Huppert faz ascender a protagonista.

39. Marcello Fonte – Dogman

Personagem: Marcello
Vivendo um adorável dono de pet shop, Marcello (o nome do personagem e do ator é o mesmo) tem uma segunda vida ao vender drogas para dar tudo o que a fofa filha deseja. Usando o meio decrépito de uma Itália em ruínas, o protagonista se afoga em questões morais violentamente importantes e produz uma performance ímpar, laureada com a Palma de "Melhor Ator" no Festival de Cannes 2018. Da composição física até as escolhas psicológicas, há nenhuma camada fora do lugar com Fonte.

38. Meryl Streep – Álbum de Família

Personagem: Violet Weston
Ainda é necessário tecer textos acerca de Meryl Streep? É bem verdade que, na atual década, a atriz não fez tantos personagens inesquecíveis, mesmo com as múltiplas indicações ao Oscar (ela só precisa existir pra ser indicada, sejamos sinceros), no entanto, sua Violet em "Álbum de Família" (2013) é a melhor (e mais subestimada) atuação da década. Matriarca, amarga e em estado terminal, Streep se despe de todo glamour para tecer uma mulher drogada à beira da morte. A cena do tapa é um auge.

37. Viola Davis – Um Limite Entre Nós

Personagem: Rose Lee Maxson
"Um Limite Entre Nós" (2016), baseado em uma peça, foi adaptado para o cinema de forma bem fidedigna: é uma enxurrada de diálogos. Basicamente não existem momentos de silêncio, fazendo com que as atuações empurrem a narrativa ininterruptamente, e Viola Davis dá conta do recado. Vencedora do Oscar pelo papel, Rose Lee é um resumo perfeito da vida da mulher negra dos anos 50 tentando viver o american dream enquanto descobre que seu marido a trai - e ela se joga em uma montanha-russa de emoções.

36. Emma Stone – La La Land

Personagem: Mia Dolan
Emma Stone é um caso interessante dentro de Hollywood: é mais uma atriz teen que começou em filmes de comédia e foi gradualmente se aventurando em filmes mais "sérios" - e, não é exagero afirmar, é a que se saiu melhor desse trajeto. Stone não apenas ganha muitos pontos em "La La Land" (2016) pela sua carismática e sonhadora Mia, mas também por ser um papel que exige voz, e ela canta magnificamente - vide "Audition (The Fools Who Dream)". O merecimento do seu Oscar pode ser visto na extrema cena final, quando um simples sorriso define todo um momento.

35. Joaquin Phoenix – Ela

Personagem: Theodore Twombly
Quando pensamos em Joaquin Phoenix, muitos dirão que sua melhor atuação é em "Coringa", seguindo o atual hype. Ou até mesmo em "O Mestre" ou "Você Nunca Esteve Realmente Aqui". Entretanto, sempre apreciei bem mais o que foi realizado em "Ela" (2013), quiçá por abrir mão de toda a megalomania dos outros papéis citados. Em "Ela", Phoenix é um tímido, retraído e depressivo homem que luta para superar um divórcio; sua vida muda quando ele se apaixona por um sistema operacional. Por mais patético que soe no papel, demandou muito talento para que o público sinta o amor de um homem por uma máquina, e Phoenix nem parece se esforçar para conseguir.

34. Viggo Mortensen – Capitão Fantástico

Personagem: Ben Cash
"Capitão Fantástico" (2016) é um filme cheio de personagens maravilhosos, mas é o Ben de Viggo Mortensen o mestre de cerimônia. Pai de seis filhos, todos vivem no meio do nada em uma floresta. Ben dedica seus dias a ensinar uma forma alternativa de educação, que podem soar extremas. A coisa vai a um patamar além quando a família é obrigada a passar um tempo na casa de uma tia; quando o choque cultural bate, a atuação de Viggo se torna ainda mais bela.

33. Michael Keaton – Birdman

Personagem: Reggan
Antes de mais nada: Michael Keaton teve seu Oscar roubado. Em um papel arquitetado unicamente para ele, Reggan é uma versão ironizada da carreira do próprio Keaton: famoso por interpretar um super-herói e esquecido logo então. Reggan corre atrás da fama durante "Birdman" (2014) inteiro, perdendo a noção da realidade nessa busca cada vez mais absurda. Faraônico, megalomaníaco e sensacional, Reggan resgatou Keaton do ostracismo e ressuscitou sua carreira.

32. Victor Polster – Garota

Personagem: Lara Verhaeghen
Há uma ótima discussão atual sobre representatividade nas artes, debatendo sobre atores cisgêneros interpretando personagens trans. Comento sobre a problemática na crítica de "Garota" (2018), mas para resumir: não podemos delimitar quem pode fazer o quê - contanto que o trabalho seja profissional e respeitoso. É o caso de Victor Polster como Lara. Sua entrega é louvável, tanto nas complicadas sequências de dança como nos vários momentos em que ele dá vida àquela menina trans cheia de bloqueios. Há verdade, há paixão e há excelência em tudo que está ao seu redor. Ele é um dos raros exemplos de atores cis a fazerem jus à escalação em papéis trans.

31. Leonardo DiCaprio – O Regresso

Personagem: Hugh Glass
Demorou, mas o dia chegou: Leonardo DiCaprio finalmente tem um Oscar para chamar de seu, e não poderia ser por um papel mais merecido. Uma cinebiografia, "O Regresso" (2015) segue os passos de Hugh Glass contra o frio, a fome e um urso enorme enquanto ferve uma vingança como combustível para sua perseverança. DiCaprio está avassaladoramente incrível, entregando-se de corpo e alma para transbordar as dificuldades do personagem - DiCaprio disse em várias entrevistas que "30 ou 40 sequências" foram as "mais difíceis" de toda a sua carreira, tendo entrado em rios congelantes, dormido com carcaça de animais e quase tendo hipotermia. Valeu a pena.

30. Regina Casé – Que Horas Ela Volta?

Personagem: Val
Não é uma surpresa que o melhor filme brasileiro da década também tenha a melhor atuação nacional do período. "Que Horas Ela Volta?" (2015) é, por muitos motivos, uma obra-prima, e um dos principais é Regina Casé, o cerne do filme, e sua atuação é irretocável. A atriz transmite por todos os poros o rosto desse Brasil de ontem e de hoje, as cores de uma fatia social enorme que vive nos becos da riqueza. Seus trejeitos, tom de fala e olhares são milimetricamente perfeitos, compondo uma personagem lotada de nuances e profundidade que vamos, pouco a pouco, adentrando sem nunca ficar raso.

29. Glenn Close – A Esposa

Personagem: Joan Castleman
Uma das atrizes mais aclamadas da história, Glenn Close já ganhou basicamente todos os principais prêmios do planeta, mas nunca o Oscar. "A Esposa" parecia ser o momento que a Academia sanaria sua dívida, mas não foi, o que não diminui a excelência em "A Esposa" (2017). Vivendo uma mulher que é soterrada pela sombra do marido, Glenn entrega o que podemos chamar de "atuação da carreira" quando, até mesmo em cenas em que não abre a boca, podemos sentir a intensidade do seu poder. E quando amarras são quebradas, o espetáculo é garantido.

28. Kirsten Dunst – Melancolia

Personagem: Justine
O mundo está prestes a acabar e Justine está se casando. "Melancolia" (2011) estuda a depressão diante do inevitável e como Justine busca preencher um vazio que em breve será justificado. Kristen Dunst, que venceu o prêmio de "Melhor Atriz" no Festival de Cannes 2011 pelo papel, alcançou territórios inéditos em sua carreira quando nos faz não conseguir imaginar outra atriz como Justine. A imprevisibilidade de sua protagonista deixa a performance ainda mais fascinante.

27. Marion Cotillard – Dois Dias, Uma Noite

Personagem: Sandra Bya
Marion Cotillard é dona da melhor atuação de todo o século: Édith Piaf em "Piaf: Um Hino ao Amor". Não por acaso, tudo o que a francesa faz é com perfeição, e, na atual década, nada supera Sandra em "Dois Dias, Uma Noite" (2014). Indicada ao Oscar, Cotillard é uma mãe de classe média que se vê engolida pelo desespero quando um dinheiro planejado não aparece - e ela deve convencer 14 outros trabalhadores a cederem um bônus, ou ela ficará sem nada. Nesse filme denúncia, Cotillard é pulsante, humana e, infelizmente, real.

26. Charlotte Rampling – 45 Anos

Personagem: Kate Mercer
"45 Anos" (2015) possui uma premissa instantaneamente cativante: perto de comemorar 45 anos de casamento, o marido de Kate recebe uma carta informando que o corpo de sua paixão da juventude foi encontrado. Ela então nota que, quanto mais próximo o aniversário está chegando, menos interessado o marido está. Charlotte Rampling (a verdadeira ganhadora do Oscar naquele ano) está longe do espectro de exagero: sua atuação é comedida e moderada, e é nos detalhes que o espetáculo habita. Na cena da dança, ela nem precisa de diálogos para gritar a verdade que estava tão herculanescamente tentando evitar.







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