Crítica: "Love" de Gaspar Noé é feito com muitas doses de amor, sexo, 3D e transfobia

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A maior especialidade do diretor franco-argentino Gaspar Nóe não é fazer bons filmes, é chocar. Podemos afirmar isso porque, para um filme ser “bom” ou “ruim”, depende de fatores e variáveis externos e pessoais. O choque, ao contrário, é unanimidade – desde seu primeiro filme.

Em “Sozinho Contra Todos” (1998) o diretor, antes do último ato, exibe por 30 segundos um aviso informando sobre o teor da cena a seguir e aconselha o espectador a parar de assistir ao filme. Em “Viagem Alucinante” (2009), acompanhamos em primeira pessoa a viagem de um espírito durante três horas de pura psicodelia. Em "Clímax" (2018), entramos de cabeça em uma festa assustadora regada a LSD. Mas foi com “Irreversível” (2002) que o nome de Noé se firmou como sinônimo de polêmica. O filme possui uma das cenas mais aterradoras da história do cinema: quase dez minutos ininterruptos com um estupro sem cortes, sem trilha, sem movimento de câmera, nada. Seco. Brutal. Cru.

Com temáticas tão desafiadoras e corajosas, o cinema de Noé é sempre envolto de muita curiosidade. Não foi diferente com “Love” (2015), seu mais ambicioso longa, que trouxe o sexo como o elemento chave. Porém, ao contrário dos outros longas, “Love” é, como o próprio realizador apontava, seu filme mais leve. “Uma celebração do amor e do sexo”, dizia.

“Love” conta a história de Murphy (Karl Glusman), um estudante de cinema americano que mora em Paris com Omi (Klara Kristin), mãe do seu filho, Gaspar. Na manhã do ano novo, o rapaz recebe um telefonema da mãe de sua ex-namorada, Electra (Aomi Muyock), dizendo que a filha sumiu há dois meses. A ligação desencadeia uma série de lembranças de Murphy sobre o relacionamento dos dois, regado a sexo, drogas e amor.


A exposição do sexo no cinema é um modo libertário de expressão que sempre existiu, ganhando força nessa década com nome como “Ninfomaníaca” (2013) de Lars Von Trier, explorando as nuances e jornadas sexuais da protagonista. Em “Love” a coisa é mais profunda, sem o perdão do trocadilho. Enquanto em “Ninfomaníaca” as cenas são coreografas e fictícias, o sexo de “Love” é real. Os atores estão realmente no ato diante da câmera. A exaltação do sexo dentro do amor foi mostrada de forma menos explícita, mas ainda mais naturalista em “Azul é a Cor Mais Quente” (2013). A premissa em “Love” é similar: mostrar como o sexo com aquele que você ama é uma experiência poderosíssima.

O relacionamento de Murphy e Electra, findado de forma brusca, nem sempre foi conturbado. Durante os flashbacks, notamos a sintonia quase transcendente dos dois, que fazem juras de amor eterno capazes de arrancar uma lágrima. Planos, anseios e até os nomes dos futuros filhos são discutidos. A química do casal é invejável, seja em momentos de ternura, seja no sexo. E é muito sexo. A coisa desandou quando eles conhecem Omi. Murphy trai Electra com a garota, que tinha apenas 16 anos, e a engravida, o que resulta num surto de ódio da então namorada.

“Love” é o primeiro filme de Noé lançado em 3D – no Brasil, o título nacional cogitado seria o desastroso “Transa 3D”, mas foi sabiamente descartado, usando o título original para não confundirmos com “Amor” (2012) de Michael Haneke. O efeito tridimensional é desnecessário e acrescenta em pouquíssima coisa ao filme, já que ele foi feito exclusivamente para três cenas – uma delas é uma ejaculação direto na tela – o que é muito pouco perto de um filme de mais de duas horas. “Viagem Alucinante” seria bem melhor aproveitado com o 3D, nos colocando de forma ainda mais eficiente dentro da visão do protagonista.


Duas dimensões são o suficiente para enchermos os olhos com o primor técnico de “Love”. A fotografia segue os moldes de “Viagem Alucinante”, intensificando os tons de verde, azul e vermelho com luzes artificiais belíssimas. Os enquadramentos são verdadeiras pinturas, ainda mais caprichadas nas cenas em camas (e são muitas), estando perfeitamente alinhadas, hora focando nas expressões dos atores, hora em detalhes. Um recurso interessante foram os cortes abruptos que escurecem a tela rapidamente, como se a câmera fosse nossos próprios olhos, que piscam de tempo em tempo. Além de nos aproximar dos acontecimentos, nos tornando quase voyeurs, os cortes dão ritmo aos planos sequência, facilitando também na hora da edição.

“Love” é a exploração bem íntima de Noé sobre o que deveria ser o cinema de celebração. Usando auto-referência a todo o momento, o filme é uma fala do próprio diretor sobre os assuntos na tela. A paixão de Murphy sobre o cinema e seu desejo de fazer um filme que mostre de forma verdadeira o amor e o sexo é o desejo de Noé, concretizado na tela. Fora as referências mais gritantes, como o filho de Murphy e Omi, que se chama Gaspar, e o ex-namorado de Electra, interpretado pelo diretor (!) e chamado de Noé.

Mesmo numa velocidade desacelerada, “Love” transcorre sem graves problemas até uma cena que quase conseguiu obliterar todo o filme. Electra sugere que Murphy faça sexo com uma travesti. A coisa já começa errada quando os dois se referem a ela como “tranny”, uma gíria que poderia ser traduzida como “traveco”, ou seja, uma forma transfóbica de se referir a uma pessoa trans.

Então a cena começa. A trans é interpretada pela atriz brasileira Stella Rocha, que se despe enquanto Murphy desiste do ato ao vê-la nua, irradiando repulsa a todo o momento. Ela insiste e a cena é cortada, deixando a entender que houve a relação. Na cena seguinte Murphy fala que queria esquecer “aquela coisa” e que Electra jamais pode falar sobre.

Qual é o problema disso tudo? Dentre de todas as opressões que cotidianamente residem na nossa sociedade, o transexual é um dos que mais sofre. Tratar de um tema tão delicado é complexo, principalmente quando exposto da forma mais estereotipada possível: a travesti prostituta e estrangeira. Se você colocar agora a palavra “travesti” no Google, verá que os resultados dominantes serão sobre prostituição, reflexo da realidade de 90% das transexuais.


Ora, se essa é a realidade, qual o problema em ser mostrada no filme? Pessoas trans são má representadas no cinema – o filme “A Garota Dinamarquesa” (2015), cof cof  –, então deixá-la na tela por um minuto, servido apenas como objeto sexual e fonte de uma mórbida curiosidade física é para torcer o nariz. E é para isso que ela está lá: uma fetichização gratuita, uma aberração para o entretenimento dos ditos "normais".

Cinema é uma arte que provoca, que incita, que questiona, e Noé sempre fez isso de forma afiada, porém o real problema com a cena em específico é: ela serviu para NADA na narrativa. Não acrescentou coisa alguma, foi arbitrária, banal. Se não existisse, faria zero diferença dentro do texto como um todo, soando como um apêndice dispensável no filme. Murphy é um cara machista, que é um valor deplorável assim como a transfobia, porém é um valor atribuído para dar peso à narrativa, para construir o personagem. O machismo não está ali de graça, ao contrário do momento com a trans. Por estar de forma gratuita, a cena simplesmente dá voz a uma opressão e ao dar voz, a fortalece.

A mesma ideia pode tranquilamente ser repassada para outros filmes do diretor. Estupro é uma realidade, por mais absurda que seja, e a cena de “Irreversível” que tanto chocou é estritamente necessária para a trama, feita da forma mais crua possível para que o espectador sinta ódio, nojo, raiva, indignação do ato presenciado. Não está ali de forma equivocada, serve como denúncia para esse crime que ainda é tão praticado (e tão impune).

De fato não dá para anular todo o filme com a cena, porém simplesmente deixá-la de lado é negligenciar algo que grita, seja pela curta duração em tela ou por qualquer outro motivo. As vantagens do longa estão lá e não podem ser diminuídas, porém o saldo final sofre grandes perdas pela construção do momento citado e faz com que “Love”, que deveria ser um júbilo cinematográfico amoroso a partir do ponto de vista sexual, reforce uma marginalização tão disseminada. Felizmente, estamos vivendo um apogeu no cinema trans - o número de obras incríveis com a temática nos últimos tempos não me deixa mentir.

É certo que pessoas trans não serão marginalizadas por conta de "Love": elas já são socialmente excluídas bem antes do filme e continuarão sendo enquanto houver pensamentos que impedem completamente o respeito à identidade transexual. Cinema, uma arte tão abrangente e poderosa, ao contrário do que podemos pensar, não é apenas entretenimento e muito menos pode ser reduzida como as horas que você passa comendo pipoca em frente à tela. Há uma função social fortíssima em seu discurso - e a responsabilidade enquanto autor é imprescindível.







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